quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A análise de desempenho no futebol – parte II: informações de jogo

Na parte I da trilogia da análise de desempenho, vimos algumas das funções do analista e a interação entre vários tipos de dados.
Na segunda parte da série, gostaria de discutir com vocês a respeito das informações de jogo.
No jogo, por ele ser imprevisível, caótico, complexo, etc., muitos dados podem ser coletados e se transformar em informações para os jogadores, técnicos, preparadores físicos, árbitros, público e assim por diante.
É possível, por exemplo, coletarmos os dados de scout e apresentar para a comissão técnica um relatório com informações técnicas da equipe, como passe.
Vamos utilizar o exemplo do passe e ver como o mesmo pode nos trazer algumas informações do jogo.
Em um relatório X, vejo que a equipe A teve um aproveitamento de passe de 85%.
O que isso me mostra?
Quase nada!
Apenas com essas informações tenho poucos recursos para avaliar o jogo e fazer algum tipo de intervenção na prática, justamente por mostrar apenas uma parte descontextualizada do jogo (!).
Vamos tentar transformar esse dado em uma informação um pouco mais valiosa, se é que podemos dizer isso.
Então, tenho um dado que mostra que a equipe A tem 85% de aproveitamento de passes, contudo vejo que 70% dos mesmos são para trás ou para o lado e mais da metade deles (dos 70%) ocorrem no campo de defesa.
O que esse dado começa a me mostrar?
Que a equipe A tem um bom aproveitamento de passes, mas os mesmos ocorrem para trás e para o lado e no setor defensivo.
Continuo tentando dar sentido aos dados...
Olhando para o jogo vejo que o adversário, equipe B, tem como princípio de defesa impedir progressão atrás da linha 3 (meio-campo) e na transição defensiva os jogadores mais próximos à bola retardam a jogada, enquanto os demais voltar para trás da linha do meio-campo.
A equipe A, por sua vez, na transição ofensiva buscar tirar a bola da zona de pressão e logo inicia um jogo de manutenção da posse em seu campo defensivo e só progride em momentos em que cria superioridade numérica nos setores laterais do campo.
Olhando ainda para os dados vejo que nas regiões laterais do campo próximas à intermediária ofensiva há dois dados distintos em relação ao aproveitamento de passes. Enquanto no lado direito o aproveitamento passa dos 65% em passes para frente, do lado esquerdo esse valor não chega aos 30%.
Indo mais a fundo, vejo que do lado direto há um adversário na linha do meio que não está integrado ao processo e não estrutura bem o espaço em sua região. Por esse fato, a linha defensiva se posiciona a fim de compensar essa falha do jogador.
Por sua vez, essa compensação leva a uma perda do equilíbrio horizontal e os dados mostram que os lançamentos do lado direito para o lado esquerdo da defesa no campo ofensivo tiveram um aproveitamento de 50%.
Quando a equipe virava o jogo corretamente (da direita para a esquerda) e o jogador que recebia a bola buscava a progressão (45% das vezes), a equipe conseguiu criar três jogadas que acabaram em finalizações; em uma delas inclusive o gol aconteceu...
Vejam: de um dado de aproveitamento de passes conseguimos chegar ao gol!
O grande segredo é transformar os dados em informações valiosas.
O analista de desempenho precisa mostrar o jogo e dar informações reais, pontuais e que ajudarão a equipe a ganhar jogos ou a formar atletas melhores!
Dar apenas um pedaço do todo não é o suficiente!
Por isso volto a afirmar que isso é só o começo...
Espero que continuemos com bons mestres para que a cada dia aprendermos mais sobre a essência do jogo e para além disso!
A informação se encaixa?
Até a próxima!
Para saber mais sobre o tema acesse -

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A análise de desempenho no futebol – parte I: dados gerais


Nos últimos anos, a análise de desempenho vem ganhando cada vez mais espaços no âmbito esportivo.
Em algumas modalidades, o papel da análise se configura com um dos pontos centrais da performance, como no futebol americano, beisebol, basquete, vôlei, futsal, atletismo, e assim por diante.
Assistindo a algumas partidas de vôlei da Superliga Nacional, notei que muitos treinadores ficam com seus tablets ao lado da quadra (alguns deixam com seus auxiliares) recebendo informações instantâneas sobre onde estão sendo os saques do adversário, onde os pontos estão acontecendo, onde a bola está passando pelo bloqueio, etc.
Será que tudo isso é importante? Será que ganha jogo?
No futebol, a análise de desempenho vem a algum tempo ganhando espaço, principalmente após a contratação do analista Rafael Vieira pela CBF. Quando o mesmo foi apresentado como membro da comissão de Mano Menezes, muitos se perguntaram o que esse profissional faria.
Mas o que ele faz?
Bom, neste ano iniciei um projeto piloto na base do clube e gostaria de compartilhar algumas reflexões e mesmo dúvidas sobre essa função.
No meu primeiro dia como analista de desempenho levantei as funções que pensei ser relevantes se tratando de formação e de resultado.
A lista é extensa.
De uma maneira geral, as funções giram em torno da análise individual dos atletas em treinos, jogos e fora do campo; análise coletiva da equipe em jogos e treinos; análise do adversário individual e coletivamente.
Dentro dessas funções, temos subdivisões que vão desde a análise comportamental do atleta até a análise das suas ações no jogo com controles subjetivos, quantitativos e qualitativos de seu desempenho.
Desempenho que precisa ser entendido com algo complexo, onde as variáveis são fractais do desempenho.
Por exemplo, em um controle hipotético de deslocamento do atleta, vejo que ele percorreu 6,320 km em um período de 80 minutos. Pelos parâmetros utilizados observo que é uma distância relativa baixa; contudo, com a análise do jogo, posso identificar que minha equipe recuperava a bola muito rapidamente e economizava energia para chegar ao gol adversário. Além disso, esse atleta ocupa muito bem o espaço e é ponto fundamental para a progressão da equipe com bola. Analiso também que mesmo tendo um volume total de deslocamento não tão alto. Suas ações de alta intensidade estão na média do grupo, ou seja, um dado apenas pode visto fragmentado do todo: complexidade.
O desempenho de um atleta de futebol não se resume as ações “táticas” ou ao posicionamento em campo. Ele é muito mais do que isso.
Analisar o desempenho do atleta é compará-lo com ele mesmo em toda a sua essência e verificar como cada variável está interagindo com as demais.
Depois de tudo isso é preciso ainda gerar as informações e os relatórios para os diversos departamentos do clube. Cada um deles precisa de um tipo de informação baseado nos próprios dados que eles fornecem para o analista que tem o papel integrador da informação. Ele deve agir como um ser transdiciplinar dentro do clube.
Mas e as informações para o treinador?
O que é importante para ele ganhar os jogos?
Muitas informações!
Mas não todas!
Como diria Renato Russo:
“Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vêE eu sei que você sabe, quase sem quererQue eu vejo o mesmo que você.”

Isso é a análise de desempenho.
Até a próxima!


* Como atualmente estou imerso na preparação da equipe para a Taça São Paulo de futebol, em breve compartilho algumas reflexões sobre as análises de desempenho aplicadas.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Os tipos de jogos: o técnico, o conceitual, o específico e o contextual


No texto de hoje vamos discutir quatro tipos básicos de jogos para o desenvolvimento do jogar dos atletas: os técnicos, os conceituais, os específicos e os contextuais. Existem outras classificações de jogos, como os jogos gerais, os jogos pré-desportivos, jogos lúdicos, jogos populares, jogos cooperativos, que de certa forma contribuem para o desenvolvimento dos atletas, mas não serão foco de nossa discussão.
Dentro das quatro classes de jogos que iremos discutir, cada um tem seu objetivo específico e organização própria.
Comecemos pelos jogos técnicos.
Os jogos técnicos, como o próprio nome já apresenta, tem como objetivo o desenvolvimento técnico dos jogadores em ambiente de jogo. Nessa classe, os jogos geralmente são estruturados quanto a suas dimensões, número de jogadores, equipes, tempo, local do campo, em função do fundamento em questão.
Por exemplo, se quero desenvolver a finalização de curta distância, posso criar um jogo de 2x2 dentro da área. Já se quero desenvolver o passe, posso criar um jogo de 6x6 em meio campo, no qual a equipe marca ponto se trocar 10 passes.
Além disso, é preciso pensar sobre como gerar sobrecarga no processo de seleção da informação, tomada de decisão e ação do jogador, pois para gerar um ambiente de aprendizagem é preciso trazer um problema condizente com a zona de desenvolvimento proximal do atleta.
Nos jogos conceituais, o que se preconiza é o desenvolvimento de conceitos de jogo que se aplicam em diferentes situações. Nesses jogos, os atletas são submetidos a estímulos que visam desenvolver o entendimento individual e coletivo de alguns conteúdos gerais e específicos do jogo.
Por exemplo, imaginemos uma situação hipotética em que preciso modificar o tipo de marcação de minha equipe, da marcação mista para a zona. Para que esse processo seja realizado de forma adequada, os jogadores precisam entender o conceito de marcação por zona em jogos conceituais, no qual o espaço geralmente é menor e as situações problemas ficam mais evidentes.
Sendo assim, ele tomará consciência das premissas, dos conceitos e implicações desse novo conteúdo em questão e a transição do tipo de marcação acontecerá de forma adequada.
Nos jogos conceituais, os campos, o número de jogadores e suas dinâmicas são variadas e se adequam, agora, aos conceitos que precisam ser desenvolvidos.
Os jogos específicos: nesse tipo, os conceitos são abordados em ambiente específicos. Isso significa que os conceitos desenvolvidos nas atividades conceituais são transportados para situações mais próximas às realidades específicas do jogo formal.
Por exemplo, após o desenvolvimento do conceito da marcação por zona, em que o jogador entenderá que sua movimentação precisa ser realizada em função da posição da bola, dos espaços e de seus companheiros, ele será submetido a situações específicas no campo de jogo. Nele, o tipo de marcação se somará ao esquema tático, as regras de ação e ocupação de espaço da equipe.
Nessas atividades, as regras do jogo em si são respeitadas, enquanto que nas atividades conceituais pode haver gols próximos um dos outros ou campos com dimensões bem reduzidas, fato que não ocorre nesse tipo de jogo. O campo pode ser reduzido, mas não descaracterizado, ou seja, não pode haver um gol dentro do círculo central do campo, por exemplo.
Nos jogos contextuais, o objetivo é preparar a equipe para o jogo do fim de semana. Nesse tipo de jogo, as características do adversário são levados em conta e as atividades são construídas a fim de que minha equipe se prepare para resolver os problemas impostos pelo adversário e/ou manipulá-los contra o mesmo.
Esses jogos acontecem geralmente em ambiente específico e são amplamente utilizados em equipes profissionais.
Cada jogo possui suas características particulares que se integram dentro de um processo de formação de equipes. Cada um tem sua importância e funcionalidade ao longo do planejamento, mas é preciso cuidado para organizá-los ao longo dos anos, meses, semanas e dias...
Não basta saber criar um jogo, mas é preciso saber quando, onde, para quê, por que...
Até a próxima.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Preleção: treino a treino ou apenas no dia do jogo?

A preleção é algo que está contido no futebol e faz parte do dia de jogo de quase todas as equipes.
Mas o que é a preleção? Para que ela serve? Só a utilizo no dia da partida?
Segundo o dicionário Michaelis, a palavra preleção significa: “Ato de prelecionar; Lição; Discurso ou conferência didática.”
Vamos analisar mais a fundo o significado “conferência didática”.
Segundo o mesmo dicionário, as palavras “conferência” e “didática” significam:
“Conferência - Reunião de pessoas para discutirem um assunto importante.”; “Didática - Arte de ensinar.”
Visto isso, podemos definir que a preleção é uma reunião orientada por uma ou mais pessoas que utilizam-se de recursos pautados na arte de ensinar.
O que isso quer dizer praticamente?
Significa que a preleção é um ambiente de aprendizado e não apenas um momento em que o treinador ou a comissão apresenta as suas respostas para os problemas do jogo.
Não quero dizer aqui que o treinador deve sentar no banco e os jogadores assumirem a discussão, mas sim que o treinador deve orientar o processo e levar os jogadores a refletirem sobre os problemas do jogo em si.
Para levar a discussão à prática, peço licença para reproduzir um trecho do livro “André Villas-Boas: Special Too”, em que o então goleiro da equipe do FC Porto, o brasileiro Hélton, se refere à preleção (chamada de palestra por ele no trecho) do treinador português antes do jogo final entre Porto e Braga na final da Liga Europa:
“(...) a palestra mexeu muito conosco... foi maravilhosa. Espetacular. Fez pensar, refletir. Quando é mais do mesmo, por exemplo, “vamos lá jogar para ganhar”, não tem grande efeito nos jogadores, porque estamos sempre a ouvir isso. Ali foi diferente, ele acrescenta sempre uma novidade, isso é espetacular.”
Veja o quanto de informação importante sobre a forma com que os jogadores veem a palestra temos nesse trecho.
Estamos no caminho certo? Será que nossos jogadores estão satisfeitos com nossas palestras?
Nesse momento específico devemos trazer coisas novas e não fazer mais do mesmo. Para isso podemos utilizar diversos recursos e abordar temas pertinentes ao momento do processo e não ficarmos “patinando” nos mesmos tópicos sempre.
Além disso, não precisamos nos focar apenas no próximo adversário!
Existem muitas coisas que podem e devem ser abordadas nessa conferência didática. Por isso a preleção deve ser vista para muito além de uma simples conversa de vestiário e ser entendida como um processo que se inicia juntamente com o processo de treino. Sendo assim, a preleção deve ser diária e no momento da partida, e o treinador não precisa e não deve tentar mudar o mundo, pois ao longo da semana tudo foi preparado para a equipe ter uma performance adequada àquele momento.
A fim de auxiliar na discussão, utilizo novamente um trecho do livro referido acima. Neste momento, o autor destaca a forma com que o treinador português André Villas-Boas conduz o processo de preleções da equipe.
“Muita gente tem a ideia de que a palestra que se faz antes dos jogos é uma peça fundamental do trabalho de preparação para um jogo. Até pode ser, por circunstâncias diversas, mas a verdade é que para os treinadores modernos vale muito mais o que se vai dizendo aos jogadores ao longo da semana.(...)
(...)Era exatamente isso que André Villas-Boas fazia no FC Porto. Começava a preparar os jogos em pequenas conversas que tinha com os jogadores, abordando pormenores sobre o posicionamento da equipe e dos próprios jogadores, falando dos adversários e da sua motivação, dos ambientes, etc.(...)
(...)A preparação feita nos dias que antecediam um jogo permitiam chegar ao dia do encontro e não ser necessário dizer grandes coisas nas tais palestras.”
Vejam que a preleção faz parte do processo!
Não há segredos.
Ao longo dos dias, das semanas, tudo deve progredir na sua complexidade e os conceitos devem se somar ao longo do tempo.
Nada é isolado e muito menos deve ocorrer a esmo, pois a performance não ocorre por acaso! Ela é fruto do trabalho diário!
Até a próxima!

Bibliografia
Perreira L.M., Pinho J. André Villas-Boas: Special too. Prime Books. Portugal, 2011

sábado, 21 de janeiro de 2012

Que venha a pré-temporada: treino físico x treino tático!

Depois das peladas de final de ano, das festas e das merecidas férias, chega o momento da volta e com ela a temida pré-temporada.

Nesse momento o objetivo geral é colocar os jogadores em forma e prepará-los para o período competitivo, certo?

Sabemos que não é bem assim em grande parte de nossas equipes, inclusive em equipes de base...

No futebol temos um “micro período” de preparação antes do período competitivo, que se estende por quase todo o ano. Sendo assim o que podemos fazer nesse curto espaço de tempo antes das competições?

Como vocês bem sabem, o objetivo da coluna não é trazer conteúdos prontos nem receitas de bolo, então para começar bem o ano vamos refletir sobre as afirmações do atual treinador do Real Madrid, José Mourinho, sobre o período preparatório no livro “Mourinho: Porquê tantas vitórias?”:

“As semanas preparatórias incidem, de forma sistemática, na organização táctica, sempre com o objetivo de estruturar e elevar o desempenho colectivo. As preocupações técnicas, físicas e psicológicas (como a concentração, por exemplo) surgem por arrastamento e como conseqüência da especificidade do nosso modelo de operacionalização”

Esse trecho reflete o pensamento da periodização tática, onde a tática (como o nome já sugere) é o norte para a estruturação do processo de treino, sendo assim as demais componentes do jogo se desenvolvem, paralelamente e subjugadas à tática, mas será que não teremos problemas com isso?

Será que colocar a tática acima das demais vertentes do jogo não é o mesmo que colocar a técnica sobre as demais?

...

Voltemos para a pré-temporada.

Através das palavras de José Mourinho, podemos observar que desde o início da temporada o objetivo é o desenvolvimento do modelo de jogo da equipe. Aparentemente não há uma preocupação prioritária com o desenvolvimento das capacidades bio-motoras dos atletas.

Devo então idealizar meu modelo e desenvolvê-lo desde o primeiro dia de trabalho correto?

Mas isso é viável hoje no futebol brasileiro?

Tudo o que é feito na preparação física de nossos atletas deve ser deixado de lado?

Penso, que a preparação física é importante para se jogar futebol assim como a pré-temporada, CONTUDO A MESMA DEVE SER SUBJULGADA NÃO A TÁTICA MAS AO JOGO.

Desse modo a preparação física deverá ser desenvolvida de maneira especificamente-fractal e a preparação agirá diretamente na performance de jogo dos atletas.

A pré-temporada deve ser vista como um momento de preparação geral de jogo onde todas as componentes devem ser desenvolvidas relativamente de maneira ótima.

Mas e a periodização tática?

Colocar a tática sobre as demais componentes do jogo é como subjulgar as demais componentes do jogo à técnica ou ao físico.

 As partes fractais do jogo devem se desenvolver tendo o jogo como norte e não uma ou outra parte fractal, mas deixemos essa discussão para um outro momento...

Por hora agradeço ao Rodrigo Azevedo Leitão pela Periodização Complexa de Jogo...

Nossa pré-temporada de colunas já começou com muitas perguntas, mas as respostas virão com o tempo!

Um excelente ano para todos nós!

Até a próxima!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Como controlar as demandas físicas de jogo no treino complexo

Uma dúvida paira no ar quando falamos em treinos pautados nos jogos: como posso saber se o objetivo físico-técnico-tático-mental da sessão de treino está sendo atingido?
Em uma sessão de treino complexa, os jogadores são submetidos a uma carga de jogo, em que os fractais estão sendo desenvolvidos concomitantemente com o todo complexo.
Nesse tipo de sessão, o controle das variáveis do treino parece ser extremamente complicado e por vezes acaba sendo deixado de lado. Sendo assim, passo a fragmentar e a não ter controle daquilo que está acontecendo no treino.
Não tendo o controle das variáveis, deixo o acaso tomar conta da sessão e o desenvolvimento da performance de jogo de minha equipe fica extremamente prejudicada.
Em um treino pautado na complexidade preciso saber qual a demanda física, técnica, tática e mental de cada atividade.
No planejamento do treino, essas demandas devem ser pensadas e cada uma delas deve ter uma meta de desenvolvimento específico.
Pensemos na questão física: em uma sessão X, o objetivo é o desenvolvimento da resistência anaeróbia lática. Sabendo disso, devo criar atividades com uma relação estímulo pausa adequada.
No caso do desenvolvimento da resistência anaeróbia lática, as atividades devem propiciar ao atleta um ambiente com uma carga de estímulos alta para um tempo reduzido de pausas.
Contudo, essa relação estímulo/pausa deve respeitar a especificidade do jogo: não posso ter um estímulo (entenda “estímulo” como a ação do jogador dentro de um jogo, e não no tempo da atividade em si) de cinco minutos para 30 segundos de pausa, pois isso não respeita a especificidade do jogo e gera uma sobrecarga negativa para o jogador.
Após o planejamento, devo aplicar o treino e verificar se este foi realizado dentro do esperado e é neste ponto que queria chegar: controle do treino.
Uma das ferramentas que mais ganha espaço atualmente é o GPS, que nos traz dados sobre o deslocamento, desde a distância total até a velocidade dos sprints. Com seus dados, posso dar um passo importante para verificar se os objetivos físicos da sessão estão sendo atingidos ou não.
Em uma sessão com o objetivo do desenvolvimento da resistência anaeróbia lática, devo verificar se o atleta realizou atividades de alta intensidade em períodos determinados de tempo e como foi o padrão de deslocamento durante toda a sessão (número de sprints, distância e velocidade de cada um deles, etc.).
A frequência cardíaca também pode auxiliar no controle do treino, quando podemos cruzar as informações do GPS com o gráfico do comportamento da frequência cardíaca dos jogadores.
No pós-treino, podemos avaliar o grau de exigência física através da coleta da percepção subjetiva de esforço dos atletas, comumente chamada de PSE. Essa ferramenta nos mostra quanto o treino foi exigente para cada um dos jogadores através da sua própria percepção.
É preciso, contudo, deixar claro como a avaliação deve ser feita e como cada um deve definir a “nota” dada ao treino. Normalmente, a PSE vai de 1 a 10, em que os valores indicam o nível de esforço dentro da sessão como um todo.
Para uma avaliação mais precisa, podemos utilizar ainda a análise de marcadores bioquímico-fisiológicos dos atletas, como a verificação do lactato na corrente sanguínea, dos leucócitos, das plaquetas, dos níveis de CK, de LDH, de uréia, de glicose, cortisol, etc., mas esse tipo de análise ainda está distante de grande parte dos clubes...
Por isso as informações do GPS, frequência cardíaca e percepção subjetiva do esforço são valiosíssimas para o controle adequado dos treinos.
Com esses dados, posso provar que os treinos estão propiciando um estímulo “físico” adequado aos atletas. Isso é fundamental para dar tranquilidade ao trabalho e provar que os jogos também treinam o físico.
Até a próxima!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O aquecimento específico ao treino de futebol


O papel do aquecimento é largamente abordado em inúmeros estudos científicos. Sua função geral é preparar o organismo para a prática esportiva.

Jürgen Weineck em seu livro clássico na preparação desportiva intitulado “ Treinamento Ideal” define com propriedade o papel do aquecimento nos treinos e jogos:

“Sob o termo aquecimento pode-se entender todas as medidas que servem como preparação para o esporte (seja para o treinamento ou competições). O aquecimento visa à obtenção do estado ideal psíquico e físico, a preparação cinética e coordenativa e a prevenção de lesões.”

Nessa definição poderíamos adicionar, no caso do futebol, que o aquecimento “...visa à obtenção do estado ideal técnico, tático, físico e psíquico...”, já que nessa modalidade esportiva os atletas são exigidos de forma integral desde o primeiro minuto da partida ou do treino.

Fisiologicamente o aquecimento, como o significado da própria palavra defini, tem por objetivo “aquecer” o organismo. Esse aquecimento é acompanhado; do aumento do metabolismo; melhor mobilização energética; aumento da irrigação tecidual; aumento da temperatura tecidual; aumento da atividade enzimática aeróbia e anaeróbia; aumento da resposta dos fusos musculares; aumento da lubrificação articular; redução do limiar de excitabilidade dos neurônios...

No aquecimento essas adaptações fisiológicas devem acontecer concomitantemente à adaptações cognitivas, onde os atletas serão preparados para os problemas específicos da sessão e do jogo propriamente dito.

O aquecimento não deve, então, se focar apenas em preparar os músculos, mas em preparar o SER para agir seja no treino ou dentro da partida.

Para que isso ocorra de forma adequada é preciso que o jogo já aconteça no aquecimento.
E lembre-se que as atividades em forma de jogo, devem obedecer um processo adequado e respeitar os conteúdos do modelo de jogo da equipe, no aquecimento isso deve ser da mesma forma.

Cada atividade desse primeiro momento do treino deve ser elaborada de forma conectada aos momentos seguintes do treino e deve obedecer os mesmo princípios.

Abaixo apresento um exemplo de “sessão de aquecimento” que obedece a temática hipotética de manutenção da posse de bola e mobilidade da parte central do treino.

Atividade 1

Descrição
- Atividade de 4 X 1, onde o objetivo dos 4 jogadores é manter a posse de bola pelo maior tempo possível.

Regras e Pontuação
- Jogador que está no meio da roda de jogadores sai desta posição quando recuperar a bola.
- Os 4 jogadores devem manter a posse das 2 bolas.



Atividade 2


Descrição
- Atividade de 3X 3, onde o objetivo das equipes é manter a posse de bola.

Regras e Pontuação
- Equipe que estiver com a posse de bola deve manter a mesma sempre em movimento e seus jogadores devem se deslocar constantemente pelo campo de jogo, se a bola ou algum jogador parar de se movimentar a equipe perde a posse da mesma.
- Equipe marca o ponto quando trocar 5 passes sem interrupção.


Atividade 3

Descrição
- Atividade de 3 X 3 + Coringa, onde o objetivo das equipes é manter a posse de bola utilizando o coringa.

Regras e Pontuação
- Equipe marca o ponto quando fizer um passe para o coringa e o mesmo devolver a bola para um jogador diferente (da mesma equipe) do que fez o passe para ele.



O tempo dessa sessão deve girar em torno de 15 a 45 minutos, dependendo das condições climáticas, estado de treinamento, período do dia, disposição psíquica e idade dos atletas, entre outros fatores.

O alongamento e outras atividades podem ser inseridas nesse momento do treino, mas todas de forma embasada e com seus devidos objetivos bem definidos.

Até a próxima!

Bruno Baquete
bruno@universidadedofutebol.com.br

Referências

WEINECK, J. Treinamento Ideal. Editora Manole: São Paulo, 9ª edição. 1999
WEINECK, J. Futebol Total: o treinamento físico no futebol. Editora Phorte: Londrina-PR. 1ª edição. 2000
KATCH, F. I. & MC ARDLE, W.D. Nutrição, Exercício e Saúde. MEDSI: Rio de Janeiro, 1996. 4ª edição. 1996

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Devo ou não treinar em função do adversário?

O jogo de futebol é composto por dois subsistemas chamados equipes, que se enfrentam em busca do melhor resultado possível dentro da partida, que nem sempre é o resultado.

Neste cenário podemos entrar no jogo “às cegas”, ou seja sem saber nada sobre o adversário (isso pode acontecer na base ou até mesmo no profissional), ou “às claras”, onde sabemos quem estamos enfrentando, em relação ao seu modelo de jogo com seus pontos fortes e fracos.

Tendo a possibilidade de conhecer a equipe adversária e fazer uma análise de seu jogo podemos preparar a equipe para os problemas contextuais ao adversário.

Contudo,

Isso significa:

Mudar minha forma de jogar em função do adversário onde me adéquo ao seu modelo de jogo.

OU

Potencializar minha forma de jogar, preparando meus jogadores para os problemas que podem aparecer no jogo em função do modelo do adversário.

Saber os pontos fortes e fracos não significa que minha equipe deva mudar sua forma de jogar em função do adversário!

Conhecendo a equipe que vou enfrentar devo preparar meus jogadores para os problemas que podem aparecer no jogo em função do modelo adversário.

Além de preparar minha equipe, posso manipular a equipe adversária para fazer aquilo que eu espero, contudo, para que isso ocorra, não posso pensar apenas no adversário e em suas características mas no jogo propriamente dito (Será que posso manipular o jogo?...)

A fim de preparar minha equipe para os problemas do jogo em função do adversário posso trazer informações para os jogadores e criar atividades CONTEXTUAIS para submeter os mesmos a uma realidade de treino similar ao jogo do final de semana, (ou meio de semana).

Ser similar ao jogo significa que os problemas emergentes no treino serão, primeiro, condicionados ao jogo e segundo, ao adversário que a equipe enfrentará.

As atividades contextuais, trazem para a sessão de treino um ambiente onde os jogadores irão ser submetidos aos problemas referentes ao modelo de jogo do adversário.

Essas atividades têm seu volume aumentado ao longo das categorias e no profissional atinge seu maior volume dentro da semana, porém não deve ser a única forma de treinamento.

Bom, vamos ao exemplo prático.

Se souber que a equipe que enfrentarei no final de semana tem um balanço ofensivo com 3 jogadores disposto em linha no meio de campo, com um contra ataque extremamente veloz e eficiente, posso criar uma atividade onde essa situação seja um problema do treino.

A atividade abaixo ilustra como isso pode ser feito:

Descrição
- Atividade de 11 X 11, sempre que a bola sair no campo defensivo da equipe amarela os coringas devem repor a bola em jogo rápido para os 3 atacantes da equipe.


Regras e Pontuação

- Gol vale 1 ponto e se for realizado de contra ataque pela equipe amarela vale 3.
Com essa atividade os jogadores serão estimulados durante a semana a resolverem esse problema e no jogo isso não será uma novidade.



Além disso, posso adotar estratégias para anular esse ponto especifico do adversário de forma organizacional, onde o adversário será direcionado a jogar de uma forma diferente que ele acostumado.

Perceba que o objetivo não deve ser mudar a forma de jogar da minha equipe em função do adversário, mas prepará-la para agir melhor no jogo.

Até a próxima!

domingo, 2 de outubro de 2011

A marcação por zona

“A organização defensiva é, acima de tudo, uma questão de defender com lucidez. Aquilo que se deve fundamentalmente procurar é fechar os espaços e assim condicionar os adversários.”
(Frade, 2002)

 
Nas últimas semanas, recebi vários e-mails sobre questões relacionadas à marcação por zona. Por isso, resolvi antecipar a discussão sobre essa temática.

Antes mesmo de iniciarmos a reflexão acerca da marcação zonal, precisamos discutir o conceito de marcação aplicado ao futebol e destacar que o mesmo é parte fractal da organização defensiva da equipe.

A marcação pode ser definida como “o ato ou resultado de marcar um espaço e/ou um adversário direto” (adaptado de Amieiro, 2005).

Partindo desta definição, podemos discutir quatro formas básicas de marcação em relação ao espaço e ao adversário:

Marcação zonal: age sobre o espaço.
Marcação individual: age sobre o jogador adversário.
Marcação individual por setor: cada jogador é responsável por um espaço e pelo jogador adversário que estiver dentro do mesmo.
Marcação mista: utiliza tanto a marcação zonal, como a individual, que se alternam em circunstâncias específicas do jogo.
Marcação híbrida: apresenta características da marcação zonal e individual, ao mesmo tempo, que se manifestam em decorrência da estratégia da equipe.

Cada um desses tipos de marcação tem inúmeras outras referências que a orientam, mas não vamos discuti-las neste momento. Nosso foca agora é a marcação por zona. Nesta, cada jogador administra um espaço do campo que se modifica em função da bola, de seus companheiros e dos gols.

O objetivo da marcação é otimizar a ocupação espacial da equipe, deixando o “campo pequeno” para o adversário que ataca. Na região onde a bola se encontra, a busca é pela criação da superioridade numérica, sem desguarnecer o lado oposto do campo que deve permanecer “vigiado” pelos jogadores mais próximos deste setor.

A região onde a bola se encontra é chamado por alguns autores de “lado forte”, enquanto a região oposta é chamada de “lado fraco”. Em cada uma dessas regiões há uma preocupação diferente por parte da equipe, e varia conforme o Modelo de Jogo de cada uma delas.

Para Nuno Amieiro, em seu livro “Defesa a Zona no Futebol”, ocupar os espaços do jogo de forma inteligente criando superioridade numérica na região da bola é um dos fatores fundamentais para “controlar” os adversários.

Além de criar superioridade numérica na região da bola e “vigiar” o lado oposto a ela, na marcação por zona se preconiza a presença de linhas escalonadas que sevem como coberturas e visam com isso “aumentar” o caminho entre a bola e o gol.

Vale destacar ainda que na marcação por zona a atenção do jogador não deve ser apenas na ocupação do seu espaço, mas no desenvolvimento de seu jogo como um todo, levando em conta as demais referências do
Modelo de Jogo.

Na marcação por zona, o que se busca é uma marcação coesa, dinâmica, homogênea com o intuito de fornecer uma referência coletiva comum aos jogadores dentro da organização defensiva da equipe.

Termino com uma frase de Ayrton Senna, grafada em seu capacete histórico, diante do qual passo todos os dias quando vou para o campo de treino:

"Há um grande desejo em mim de sempre melhorar. Melhorar é o que me faz feliz. E sempre que sinto que estou aprendendo menos, que a curva de aprendizado está nivelando, ou seja, o que for, então não fico muito contente. E isso se aplica não só profissionalmente, como piloto, mas como pessoa”.

Até a próxima!

Referência bibliográfica:
Amieiro, N. Defesa à Zona no Futebol: Um pretexto para refletir sobre o jogar... bem, ganhando! Edição do Autor. 2005

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

As bolas paradas!


O jogo de futebol pode ser entendido a partir de 4 momentos: ofensivo, defensivo, de transição ofensiva e de transição defensiva os quais se relacionam entre si de forma complexa.

Em decorrência da observação do comportamento distinto das equipes nas jogadas originárias de bolas paradas surgiram várias discussões sobre a necessidade de se adicionar um novo momento para o entendimento do jogo de futebol: O momento das bolas paradas.

Surgira assim o 5º momento do jogo!

Alguns autores foram além e afirmaram que o 5º momento correspondia às bolas paradas defensivas e o 6º momento as bolas paradas ofensivas, não é o objetivo entrar nessa discussão e vamos tratar as bolas paradas como um momento apenas.

Nesse 5º momento do jogo as equipes partem da organização, ou seja, os jogadores “conhecem” o posicionamento da sua equipe e do adversário (fato raro no jogo de futebol que se caracteriza por um jogo onde o caos é seu ambiente). A partir dessa organização os jogadores que tem a bola parada a seu favor tentam desorganizar o adversário para obter o êxito na jogada enquanto a equipe adversária exerce uma ação contrária.

Toda essa dinâmica tanto ofensiva como defensiva precisa ser norteada pelo modelo de jogo que deve contemplar ainda a transição após essas jogadas.

No modelo de jogo preciso definir a forma de marcação, a forma de ataque, a estruturação do espaço, a barreira (em tiro livre direto/indireto), o balanço ofensivo e defensivo (pensando na transição), quem e como a reposição será feita, etc.

A partir da definição dos conceitos devo construir as atividades.

As atividades seguem os mesmos pressupostos apresentados nas colunas anteriores, só que neste momento a ênfase é nas questões pertinentes às bolas paradas sem descontextualizá-las do jogo. Isso significa que as bolas paradas devem estar inerentes ao jogo e não ser treinadas separadas e sem ter uma ligação com os momentos subseqüentes à mesma.

Vamos ao exemplo prático.

O modelo de jogo da minha equipe pressupõe que a marcação a ser realizada na bola parada defensiva no escanteio é a marcação mista com um jogador marcando a zona da bola baixa (2), um marcando a zona da primeira trave (7), um marcando a zona central da área (4) e um jogador marcando a zona da entrada da área (10) e os demais marcando individual, conforme ilustração abaixo:


No balanço ofensivo minha equipe possui um jogador no meio de campo na lateral oposta lado do escanteio e um jogador centralizado, conforme ilustração abaixo:


Na transição ofensiva minha equipe deve estruturar rápido um 1-4-4-2 em losango e o jogador que recuperar a bola deve buscar um passe vertical e a equipe deve progredir e realizar um contra ataque ou um ataque rápido, conforme animação abaixo:


A fim de desenvolver os conteúdos descritos acima relacionados à bola parada defensiva no escanteio a atividade abaixo foi concebida.
 
Descrição
- Atividade de 11 X 11 no campo todo (“coletivo” adaptado).
- Toda a vez que a bola sair do campo a reposição é feita a partir de um escanteio.

Pontuação
Geral
- Gol durante o jogo vale 3 pontos (Sem ser a partir do escanteio)

Equipe que ataca no escanteio
- Finalização no gol ou pra fora vale 1 ponto.
- Gol vale 5 pontos

Equipe que defende no escanteio
- Se ultrapassar a linha tracejada com a bola dominada marca 1 ponto.
- Se fizer o gol no contra ataque vale 5 pontos

Regra do goleiro
- Se fizer a saída completa no escanteio sua equipe marca 1 ponto.


Treinemos as jogadas de bola parada que elas alteram sim o placar!